{"id":316,"date":"2026-06-02T14:27:30","date_gmt":"2026-06-02T17:27:30","guid":{"rendered":"http:\/\/tdalla.com.br\/?p=316"},"modified":"2026-06-02T14:27:31","modified_gmt":"2026-06-02T17:27:31","slug":"o-sangue-que-irriga-o-fazendao-mortes-no-campo-dobram-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tdalla.com.br\/?p=316","title":{"rendered":"O sangue que irriga o fazend\u00e3o: mortes no campo dobram no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Pa\u00eds aprofunda o modelo agroexportador, amplia pontes com o agroneg\u00f3cio e tensiona o combate ao trabalho escravo\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil registrou 26 assassinatos decorrentes de conflitos no campo em 2025, de acordo com a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), organismo ligado \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica que atua em defesa dos povos do campo. O n\u00famero dobrou em rela\u00e7\u00e3o a 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao olhar quem est\u00e1 por tr\u00e1s das mortes, o padr\u00e3o se repete: 20 dos 26 assassinatos tiveram fazendeiros como respons\u00e1veis diretos ou indiretos. A disputa por terra segue concentrando 75% das ocorr\u00eancias, com 1.286 casos, sendo a maioria ligada \u00e0 viol\u00eancia contra posse e ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A radiografia da CPT ajuda a desmontar a ideia de que o conflito agr\u00e1rio \u00e9 res\u00edduo de um Brasil arcaico. Tanto nos conflitos por terra quanto nos conflitos pela \u00e1gua, aparecem mineradoras, empres\u00e1rios e fazendeiros entre os agentes causadores dessas viola\u00e7\u00f5es. Esses n\u00fameros se conectam com a escolha econ\u00f4mica feita pelo Pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a de se consolidar como <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/opiniao\/terras-raras-nao-sao-farelo-de-soja\/\">exportador de <em>commodities<\/em><\/a> agr\u00edcolas e minerais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/o-brasil-convertido-em-fazendao-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a> publicado em 2021, Marcio Pochmann, atual presidente do IBGE, descreveu o Brasil como um \u201cfazend\u00e3o do mundo\u201d. J\u00e1 naquela \u00e9poca, mais de dois ter\u00e7os das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras eram formadas por <em>commodities<\/em> minerais e agropecu\u00e1rias, enquanto a ind\u00fastria perdia peso e o Pa\u00eds aprofundava sua depend\u00eancia de produtos de baixo valor agregado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A soja \u00e9 a vitrine mais eficiente dessa escolha. O Brasil lidera a produ\u00e7\u00e3o mundial do gr\u00e3o, com 171,5 milh\u00f5es de toneladas na safra 2024\/2025. Mato Grosso, sozinho, produziu 50,6 milh\u00f5es de toneladas, volume que o colocaria como terceiro maior produtor do mundo se fosse um pa\u00eds, atr\u00e1s apenas do Brasil e dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro dado assustador: o Brasil registrou em 2025 o pior ano em intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos desde 2015, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2026\/03\/brasil-recorde-intoxicacao-agrotoxico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">analisados<\/a> pela rep\u00f3rter H\u00e9len Freitas na <em>Rep\u00f3rter Brasil<\/em>. Foram 9.729 casos, uma m\u00e9dia de 27 pessoas intoxicadas por dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das mortes e do envenenamento, o custo de ser o \u201cfazend\u00e3o do mundo\u201d tamb\u00e9m aparece no trabalho escravo. Segundo o relat\u00f3rio da CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados de condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o no meio rural em 2025, em 159 casos. O n\u00famero representa aumento de 5% em rela\u00e7\u00e3o a 2024. Um dos epis\u00f3dios mais graves ocorreu em Porto Alegre do Norte, em Mato Grosso, onde mais de 500 pessoas foram <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/08\/incendio-alojamento-resgate-563-operarios-escravidao-mt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">resgatadas<\/a> na obra de constru\u00e7\u00e3o de uma usina de etanol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A lista suja do trabalho escravo, cadastro criado em 2003 e reconhecido pela ONU como um dos principais instrumentos de transpar\u00eancia nessa \u00e1rea, virou objeto de disputa dentro do pr\u00f3prio Estado, comandado por um governo do PT. N\u00e3o custa lembrar: PT significa Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso da JBS Aves \u00e9 o mais emblem\u00e1tico. Em fevereiro, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2026\/02\/ministro-autuacao-jbs-trabalho-escravo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">anulou autos<\/a> de infra\u00e7\u00e3o que responsabilizavam a empresa por condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o em granjas fornecedoras no Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dez trabalhadores haviam sido resgatados, com jornadas de at\u00e9 16 horas e alimenta\u00e7\u00e3o com frangos descartados. A decis\u00e3o se baseou no entendimento de que a empresa n\u00e3o poderia ser responsabilizada diretamente por viola\u00e7\u00f5es cometidas por uma terceirizada, contrariando a avalia\u00e7\u00e3o dos auditores fiscais, que apontavam a JBS como principal respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso n\u00e3o foi isolado. A BYD <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/byd-e-amado-batista-entram-na-lista-suja-do-trabalho-escravo-cadastro-chega-a-613-nomes\/\">entrou na lista suja<\/a> em abril de 2026 ap\u00f3s fiscaliza\u00e7\u00e3o identificar trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es degradantes em obras da f\u00e1brica da montadora chinesa em Cama\u00e7ari (BA), mas foi retirada dois dias depois por decis\u00e3o judicial. Na sequ\u00eancia, o secret\u00e1rio nacional de Inspe\u00e7\u00e3o do Trabalho <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2026\/04\/apos-passagem-da-byd-pela-lista-suja-da-escravidao-chefe-da-fiscalizacao-e-demitido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foi exonerado<\/a>. O Minist\u00e9rio do Trabalho disse tratar-se de ato administrativo de gest\u00e3o, mas a associa\u00e7\u00e3o dos auditores fiscais repudiou a exonera\u00e7\u00e3o e a relacionou ao epis\u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se esse fazend\u00e3o que \u00e9 o Brasil tivesse de escolher uma trilha sonora, ela poderia ser embalada pelos cantores <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2024\/10\/leonardo-cantor-sertanejo-entra-lista-suja-trabalho-escravo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo<\/a> e <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2026\/04\/cantor-amado-batista-byd-lista-suja-trabalho-escravo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amado Batista<\/a>. Os dois j\u00e1 entraram na lista suja do trabalho escravo, em momentos diferentes. Leonardo foi inclu\u00eddo em 2024 ap\u00f3s fiscaliza\u00e7\u00e3o encontrar seis pessoas, incluindo um adolescente de 17 anos, em uma casa abandonada, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, sem banheiro e sem camas, com t\u00e1buas de madeira e gal\u00f5es de agrot\u00f3xicos improvisados como estrutura para dormir, em fazendas de Goi\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nome de Leonardo foi retirado da lista em 2025 ap\u00f3s acordo com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho em Goi\u00e1s. O compromisso previu pagamento de 500 mil reais por danos morais coletivos, al\u00e9m de medidas como contrata\u00e7\u00e3o direta com v\u00ednculo formal, programa interno de integridade trabalhista e auditoria independente. Amado Batista entrou na lista em 2026, ap\u00f3s duas fiscaliza\u00e7\u00f5es em Goi\u00e1s, em atividades relacionadas ao cultivo de milho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><mark>Como estamos em um ano eleitoral, vale perguntar se h\u00e1 um projeto em curso para enfrentar essa engrenagem.<\/mark> O governo <strong>Lula<\/strong> se apresenta como anteparo \u00e0 extrema-direita, e h\u00e1 diferen\u00e7as reais em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo <strong>Bolsonaro,<\/strong> especialmente na recomposi\u00e7\u00e3o de \u00e1reas ambientais e indigenistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a pol\u00edtica mostra outra dire\u00e7\u00e3o. A filia\u00e7\u00e3o de K\u00e1tia Abreu ao PT, em abril, \u00e9 sintom\u00e1tica. Ex-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Agricultura (CNA) e ex-senadora pelo Tocantins, ela foi uma das principais vozes da bancada ruralista nos anos 2000.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2010, durante a Confer\u00eancia do Clima de Canc\u00fan, no M\u00e9xico, recebeu de ativistas do Greenpeace e de movimentos indigenistas o trof\u00e9u Motosserra de Ouro. A ONG a apontava como uma das orquestradoras do enfraquecimento do C\u00f3digo Florestal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo andar da carro\u00e7a, n\u00e3o surpreenderia se ao inv\u00e9s do cacique <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/apesar-de-criticas-cacique-raoni-declara-apoio-a-lula-na-eleicao-de-outubro\/\">Raoni Metuktire<\/a> subir a rampa com Lula, em caso do petista ser reeleito, a escolhida fosse a pol\u00edtica contemplada com a motosserra de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em S\u00e3o Paulo, a pr\u00e9-campanha de <strong>Fernando Haddad<\/strong> (PT) tamb\u00e9m olha para dentro da porteira. A pecuarista Teresa Vendramini, conhecida como Teca, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, foi sondada para ser vice na chapa ao governo paulista. A l\u00f3gica \u00e9 encontrar algu\u00e9m capaz de sinalizar di\u00e1logo com o agroneg\u00f3cio e com o interior conservador, numa opera\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 escolha de Geraldo Alckmin como vice de Lula em 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O agro, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas um setor econ\u00f4mico. Seus pr\u00f3ceres matam e desmatam e, al\u00e9m de soja, milho e gado, produzem linguagem, s\u00edmbolos e alian\u00e7as para vender a imagem de pujan\u00e7a e apagar os rastros de sangue e veneno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisadora do Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap) Renata Nagamine prop\u00f5e, <a href=\"https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/opiniao\/2026\/02\/06\/alem-do-boi-e-da-biblia-como-o-agrocristianismo-ajuda-a-pensar-o-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em artigo<\/a>, o termo <mark>\u201cagrocristianismo\u201d<\/mark> para pensar essa fus\u00e3o. Ela deixa claro que ningu\u00e9m se apresenta como \u201cagrocrist\u00e3o\u201d. O conceito funciona como uma fotografia, uma forma de tornar vis\u00edvel a articula\u00e7\u00e3o entre campo econ\u00f4mico, linguagem religiosa e regime moral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nagamine parte de exemplos como a presen\u00e7a do evangelista Deive Leonardo e do padre Frei Gilson na festa do pe\u00e3o de Barretos para mostrar que a antiga f\u00f3rmula \u201cboi e B\u00edblia\u201d ficou curta. O que aparece ali n\u00e3o \u00e9 apenas alian\u00e7a parlamentar, mas produ\u00e7\u00e3o de uma imagem de Brasil em que rodeio, fam\u00edlia, louvor, propriedade, ordem e prosperidade passam a circular juntos e formam um modo de imaginar e falar que disputa a pr\u00f3pria ideia de Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo ocorre em um Brasil menos cat\u00f3lico e mais fragmentado religiosamente. O Censo 2022 mostrou que os cat\u00f3licos ca\u00edram de 65,1% para 56,7% da popula\u00e7\u00e3o de 10 anos ou mais entre 2010 e 2022. Os evang\u00e9licos subiram de 21,6% para 26,9%. O dado n\u00e3o autoriza transformar toda mudan\u00e7a religiosa em ades\u00e3o autom\u00e1tica \u00e0 extrema-direita, mas ajuda a entender por que a disputa pol\u00edtica tamb\u00e9m passou a ser travada em templos e palcos sertanejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse terreno que o professor <a href=\"https:\/\/iclnoticias.com.br\/autor\/joao-cezar-de-castro-rocha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha<\/a>, da Uerj, identifica o avan\u00e7o da chamada teologia do dom\u00ednio. Em artigos publicados no <em>ICL Not\u00edcias<\/em>, ele sustenta que n\u00e3o se trata de ret\u00f3rica religiosa, mas de um projeto de poder que ganhou for\u00e7a ao convergir com a extrema-direita e com o militarismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o autor, essa doutrina se apoia em uma leitura seletiva das Escrituras, com \u00eanfase no mandamento de \u201cdominar\u201d a terra, para defender que o Estado deve ser reorganizado segundo princ\u00edpios crist\u00e3os. A estrat\u00e9gia \u00e9 ampliar o n\u00famero de fi\u00e9is, converter esse crescimento em for\u00e7a eleitoral e, a partir da\u00ed, alterar as leis para construir uma ordem social baseada na B\u00edblia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa leitura ajuda a entender o que Nagamine chama de agrocristianismo. De um lado, uma doutrina que prop\u00f5e ocupar as institui\u00e7\u00f5es. De outro, um campo econ\u00f4mico e simb\u00f3lico que organiza valores em torno da terra, da produ\u00e7\u00e3o e da autoridade. O resultado \u00e9 um ambiente em que essas dimens\u00f5es passam a operar no mesmo sentido e disputam a pr\u00f3pria ideia de Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><mark>A militariza\u00e7\u00e3o fecha esse tri\u00e2ngulo simb\u00f3lico com o agro e a religi\u00e3o.<\/mark><a href=\"https:\/\/www.ufmg.br\/comunicacao\/assessoria-de-imprensa\/releases\/pesquisa-e-inovacao\/interesse-dos-jovens-nas-forcas-armadas-e-na-policia-militar-cresce-mostra-estudo-com-a-participacao-da-ufmg\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa<\/a> conduzida por King\u2019s College London, UFPE, UFMG e Sciences Po mostrou que o interesse de jovens brasileiros por carreira nas For\u00e7as Armadas cresceu de 43,8% para 55,6% entre 2021 e 2025. A resposta \u201cdefinitivamente sim\u201d \u2014 ou seja, jovens que afirmam querer seguir carreira militar \u2014 subiu de 19,9% para 30,7%. O dado n\u00e3o prova ades\u00e3o ideol\u00f3gica, mas revela aumento do prest\u00edgio de institui\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 ordem, \u00e0 hierarquia e ao uso leg\u00edtimo da for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que esses dados mostram, juntos, \u00e9 uma converg\u00eancia. De um lado, um modelo econ\u00f4mico que expande soja, boi, minera\u00e7\u00e3o e energia sobre territ\u00f3rios em disputa. De outro, uma reorganiza\u00e7\u00e3o cultural em que cristianismo midi\u00e1tico, defesa da propriedade, ordem e imagin\u00e1rio militar passam a se refor\u00e7ar no debate p\u00fablico. No meio, seguem povos ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pequenos agricultores e trabalhadores sem terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A nova fronteira dos minerais cr\u00edticos repete o roteiro com roupa tecnol\u00f3gica. O Brasil tem reservas estrat\u00e9gicas de terras raras, l\u00edtio, ni\u00f3bio e outros minerais importantes para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, para a ind\u00fastria eletr\u00f4nica e militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma ofensiva dos Estados Unidos para ampliar acesso a esses recursos e reduzir a depend\u00eancia da China. Contudo, as terras raras n\u00e3o s\u00e3o apenas uma disputa comercial. S\u00e3o uma quest\u00e3o de soberania. O valor maior est\u00e1 no processamento e na industrializa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na exporta\u00e7\u00e3o bruta da mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2025\/10\/minerais-criticos-indigenas-isolados-amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Levantamentos<\/a> da rep\u00f3rter Isabel Harari, da <em>Rep\u00f3rter Brasil<\/em>, mostram que 278 terras ind\u00edgenas est\u00e3o cercadas por requerimentos de explora\u00e7\u00e3o de minerais cr\u00edticos. Outro levantamento identificou 1.827 pedidos de minera\u00e7\u00e3o a menos de 40 quil\u00f4metros de \u00e1reas com povos isolados na Amaz\u00f4nia, afetando ao menos 45 grupos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A promessa da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica pode repetir o velho padr\u00e3o brasileiro: o lucro viaja, o buraco fica e a viol\u00eancia permanece no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta coluna n\u00e3o trata somente de mais uma cole\u00e7\u00e3o de n\u00fameros tristes. Os dados da CPT mostram que a viol\u00eancia no campo \u00e9 parte do funcionamento normal de um pa\u00eds que chama exporta\u00e7\u00e3o de voca\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o de progresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil ampliou sua capacidade de produzir, exportar e gerar riqueza, mas n\u00e3o resolveu a disputa por terra, n\u00e3o eliminou o trabalho escravo e n\u00e3o reduziu a letalidade dos conflitos. O fazend\u00e3o ficou mais moderno, mas parte dos fazendeiros, quando contrariados, continuam atirando, mesmo que o colete que usem seja daqueles corriqueiros na Faria Lima\u2026. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia mais em <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/daniel-camargos\/o-sangue-que-irriga-o-fazendao-mortes-no-campo-dobram-no-brasil\/?utm_medium=relacionadas_right&amp;utm_source=cartacapital.com.br. \">https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/daniel-camargos\/o-sangue-que-irriga-o-fazendao-mortes-no-campo-dobram-no-brasil\/?utm_medium=relacionadas_right&amp;utm_source=cartacapital.com.br. <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pa\u00eds aprofunda o modelo agroexportador, amplia pontes com o agroneg\u00f3cio e tensiona o combate ao trabalho escravo\u2026 O Brasil&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,9,5,10,8],"tags":[],"class_list":["post-316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-acidentes-de-trabalho","category-justica-do-trabalho","category-legislacao","category-regulamentacao","category-servidao-moderna"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=316"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":318,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/316\/revisions\/318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tdalla.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}