{"id":280,"date":"2026-05-27T18:36:39","date_gmt":"2026-05-27T21:36:39","guid":{"rendered":"http:\/\/tdalla.com.br\/?p=280"},"modified":"2026-05-27T18:54:53","modified_gmt":"2026-05-27T21:54:53","slug":"nr-1-valendo-setor-publico-e-termometro-para-o-que-vira-na-iniciativa-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tdalla.com.br\/?p=280","title":{"rendered":"NR-1 valendo: setor p\u00fablico \u00e9 term\u00f4metro para o que vir\u00e1 na iniciativa privada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem litiga h\u00e1 anos no contencioso trabalhista da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica aprende a reconhecer um padr\u00e3o. Quase sempre, quando uma demanda nova explode em volume nos processos contra o Estado, \u00e9 porque algo estrutural mudou no mundo do trabalho \u2013 e o setor privado vai sentir o impacto pouco depois. Aconteceu com terceiriza\u00e7\u00e3o. Aconteceu com ass\u00e9dio moral. Est\u00e1 acontecendo agora com adoecimento mental. E isso traz um alerta vermelho para as empresas com o in\u00edcio da fiscaliza\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 NR-1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma pesquisa apresentada na sede do Dieese em 5 de maio, conduzida pela Apeoesp, pelo SindSa\u00fade-SP, pela Afuse e pela Frente Parlamentar pela Sa\u00fade e Direitos do Funcionalismo P\u00fablico Estadual, ouviu trabalhadores das redes estaduais paulistas de Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade entre dezembro de 2025 e mar\u00e7o de 2026. O resultado: 97,6% dos profissionais da Educa\u00e7\u00e3o e 81,1% dos da Sa\u00fade associam diretamente seu adoecimento mental \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falo de quase totalidade da categoria fazendo um nexo causal entre a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e seu pr\u00f3prio sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses s\u00e3o os dados que circulam nos notici\u00e1rios. Mas h\u00e1 um outro \u00e2ngulo, menos \u00f3bvio, que vejo emergir das pilhas de processos que cruzam a mesa de qualquer procurador municipal: o servi\u00e7o p\u00fablico brasileiro virou o laborat\u00f3rio onde se mede, antes de qualquer outro lugar, a real dimens\u00e3o do colapso. E isso por uma raz\u00e3o simples: o servidor est\u00e1vel n\u00e3o tem medo de buscar o afastamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um dado dentro do dado que merece aten\u00e7\u00e3o: 54,5% j\u00e1 se afastaram por quest\u00f5es f\u00edsicas, mas s\u00f3 16% formalizaram afastamento por quest\u00f5es ps\u00edquicas. Mesmo entre servidores est\u00e1veis, o sofrimento mental ainda \u00e9 mais escondido do que o sofrimento f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se essa subnotifica\u00e7\u00e3o ocorre na prote\u00e7\u00e3o da estabilidade, o que dizer da iniciativa privada, onde a CAT (comunica\u00e7\u00e3o por acidente de trabalho) por <a href=\"https:\/\/vocerh.abril.com.br\/saude-mental\/depressao-e-trabalho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">transtorno mental<\/a> \u00e9, na maioria dos casos, sin\u00f4nimo de fim de carreira?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que entra o ponto que executivos e profissionais de RH precisam compreender: esses n\u00fameros s\u00e3o apenas a ponta vis\u00edvel. O iceberg do adoecimento ocupacional est\u00e1 abaixo da linha d\u2019\u00e1gua, e o servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 o \u00fanico lugar onde ele aparece com nitidez razo\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nas a\u00e7\u00f5es trabalhistas, PGR ser\u00e1 usado para ind\u00edcio de culpa das empresas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a fiscaliza\u00e7\u00e3o punitiva da NR-1 entrando em vigor, a iniciativa privada vai ser obrigada, pela primeira vez de modo expresso e audit\u00e1vel, a olhar para esse iceberg. A Portaria MTE n\u00ba 1.419, publicada no Di\u00e1rio Oficial em agosto de 2024, alterou o cap\u00edtulo 1.5 da NR-1 para incluir, ao lado dos riscos f\u00edsicos, qu\u00edmicos, biol\u00f3gicos e ergon\u00f4micos, os fatores de risco psicossocial relacionados ao trabalho. Os FRPRT, na sigla t\u00e9cnica, abrangem coisas que at\u00e9 hoje passavam ao largo do programa de gerenciamento de riscos: <a href=\"https:\/\/vocerh.abril.com.br\/saude-mental\/burnout-no-rh-o-que-esta-por-tras-e-como-evitar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">carga de trabalho excessiva<\/a>, press\u00e3o temporal, conflito de pap\u00e9is, aus\u00eancia de autonomia, metas inalcan\u00e7\u00e1veis, falhas de comunica\u00e7\u00e3o, lideran\u00e7as disfuncionais, exposi\u00e7\u00e3o a viol\u00eancia institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de agora, qualquer empresa com empregados regidos pela CLT \u2013 independentemente de porte ou grau de risco \u2013 pode ser autuada pela inspe\u00e7\u00e3o do trabalho se o seu PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) n\u00e3o contemplar a identifica\u00e7\u00e3o, a avalia\u00e7\u00e3o e o plano de a\u00e7\u00e3o para esses fatores. O ministro Luiz Marinho tem reiterado que n\u00e3o haver\u00e1 nova prorroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem trabalha com contencioso sabe ler entre as linhas dessa norma. O efeito jur\u00eddico que ela produz n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no campo administrativo. Est\u00e1 no campo probat\u00f3rio do processo trabalhista. A partir deste dia 26, o trabalhador que ajuizar a\u00e7\u00e3o por adoecimento mental relacionado ao trabalho ter\u00e1 nas m\u00e3os um argumento devastador: a empresa-r\u00e9 n\u00e3o cumpriu, ou cumpriu mal, sua obriga\u00e7\u00e3o legal de mapear e gerenciar o risco que produziu o dano. A aus\u00eancia ou a fragilidade do PGR, em si, vira ind\u00edcio de culpa. Isso desloca, na pr\u00e1tica, parte do \u00f4nus probat\u00f3rio que historicamente pesava sobre o autor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 exagero. A NR-1 atualizada cria, na linguagem dos trabalhistas, um novo padr\u00e3o de dilig\u00eancia exig\u00edvel do empregador. E padr\u00e3o de dilig\u00eancia \u00e9 exatamente o que os ju\u00edzes usam para aferir culpa em casos de doen\u00e7a ocupacional. H\u00e1 raz\u00f5es para acreditar que veremos, nos pr\u00f3ximos cinco anos, uma onda de a\u00e7\u00f5es com pedido de indeniza\u00e7\u00e3o por dano moral, dano existencial, lucros cessantes e estabilidade acident\u00e1ria fundadas em diagn\u00f3sticos de F32 (depress\u00e3o), F33 (depress\u00e3o recorrente), F41 (ansiedade) e F43 (rea\u00e7\u00f5es a estresse grave). E os dados oficiais n\u00e3o deixam d\u00favida sobre o terreno f\u00e9rtil que esse contencioso encontrar\u00e1: segundo o Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia, os transtornos mentais e comportamentais j\u00e1 s\u00e3o a terceira maior causa de incapacidade tempor\u00e1ria no pa\u00eds, atr\u00e1s apenas das doen\u00e7as osteomusculares e das les\u00f5es por causas externas. Os tr\u00eas grupos juntos respondem por 62,61% de todas as concess\u00f5es de aux\u00edlio em 2025.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Cultura de riscos psicossociais deve render passivos trabalhistas de longo prazo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui \u00e9 onde minha experi\u00eancia como advogado p\u00fablico me leva a um insight desconfort\u00e1vel para parte dos gestores que v\u00e3o ler este artigo. A jurisprud\u00eancia trabalhista vem desenvolvendo, nos \u00faltimos anos, o conceito de ass\u00e9dio moral organizacional. N\u00e3o se trata mais do chefe abusivo isolado, do gestor explosivo que humilha publicamente. \u00c9 uma figura mais sofisticada e mais perigosa: o ass\u00e9dio que decorre da pr\u00f3pria arquitetura da organiza\u00e7\u00e3o. Metas calibradas para serem inating\u00edveis. Reestrutura\u00e7\u00f5es c\u00edclicas que mant\u00eam o trabalhador em estado permanente de inseguran\u00e7a. Rankings p\u00fablicos de desempenho. Reuni\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o. Comunica\u00e7\u00e3o de demiss\u00f5es em massa por mensagem. Cultura de \u201calta performance\u201d em que o adoecimento \u00e9 tratado como falha individual, n\u00e3o como sintoma sist\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse conceito, que demorou a ganhar tra\u00e7\u00e3o no contencioso trabalhista do setor p\u00fablico, hoje fundamenta condena\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias contra entes da administra\u00e7\u00e3o e contra empresas estatais. A NR-1 atualizada empresta a ele uma base normativa que antes faltava. Quando o juiz examinar um caso de <a href=\"https:\/\/vocerh.abril.com.br\/saude-mental\/nr-1-valendo-setor-publico-e-termometro-para-o-que-vira-na-iniciativa-privada\/vocerh.abril.com.br\/saude-mental\/12-sinais-de-alerta-do-burnout\/\">burnout<\/a> em 2027 ou 2028, ele ter\u00e1 em m\u00e3os n\u00e3o apenas a per\u00edcia m\u00e9dica e os depoimentos das testemunhas. Ter\u00e1 tamb\u00e9m o PGR da empresa \u2013 ou a aus\u00eancia dele \u2013 como pe\u00e7a central da instru\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria. Empresas com cultura de press\u00e3o extrema, que at\u00e9 ontem celebravam um modelo agressivo de gest\u00e3o como diferencial competitivo, podem descobrir que esse mesmo modelo se tornou um passivo trabalhista de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sua empresa est\u00e1 pronta para uma auditoria da nova NR-1?<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para um leitor da iniciativa privada, isso suscita algumas perguntas que valem mais do que qualquer checklist. Onde se concentram, por setor e por lideran\u00e7a, os afastamentos por CIDs do cap\u00edtulo V na sua empresa? Voc\u00ea sabe responder com dados, ou ainda trata esse n\u00famero como ru\u00eddo administrativo? Existem, hoje, mecanismos estruturados de escuta e consulta aos trabalhadores sobre riscos psicossociais \u2013 exig\u00eancia expressa do item 1.5.3.3 da NR-1 atualizada \u2013 ou os afastamentos s\u00f3 viram pauta quando o passivo j\u00e1 se materializou? Suas lideran\u00e7as foram capacitadas em gest\u00e3o psicossocial ou continuam sendo medidas exclusivamente por entrega num\u00e9rica? E, talvez a mais importante: o seu modelo atual de metas e cobran\u00e7a suportaria uma auditoria de razoabilidade conduzida por um auditor-fiscal do trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale notar que o ordenamento j\u00e1 oferece sinaliza\u00e7\u00e3o positiva para empresas que se anteciparem. A Lei n\u00ba 14.831, de 2024, instituiu o Certificado Empresa Promotora da Sa\u00fade Mental, conferido pelo Executivo federal a organiza\u00e7\u00f5es que adotam pr\u00e1ticas estruturadas nessa \u00e1rea. E isso n\u00e3o \u00e9 mero selo de marketing. Quando uma empresa for r\u00e9 em a\u00e7\u00e3o trabalhista por adoecimento, esse certificado funcionar\u00e1 como elemento de prova de dilig\u00eancia, ao lado de um PGR bem constru\u00eddo e de registros consistentes de monitoramento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Servidor p\u00fablico: de \u201cacomodado\u201d a \u201cesgotado\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Direito, o que se documenta hoje \u00e9 o que se prova amanh\u00e3. H\u00e1 uma ironia no centro de tudo isso. Por d\u00e9cadas, o servidor p\u00fablico brasileiro foi descrito, com algum desd\u00e9m, como acomodado, ineficiente, alheio aos rigores do mundo competitivo. As estat\u00edsticas que agora chegam \u00e0 mesa de qualquer procurador, pesquisador ou auditor mostram outra coisa. Mostram um trabalhador exausto, ansioso, esgotado pela press\u00e3o de fazer mais com menos, por reformas administrativas constantes, por metas que descem por planilha sem qualquer ader\u00eancia \u00e0 realidade do territ\u00f3rio. Esse trabalhador, ao judicializar seu adoecimento \u2013 algo que sua estabilidade lhe permite fazer com menos medo \u2013, est\u00e1, sem saber, escrevendo a pr\u00f3xima p\u00e1gina do Direito do Trabalho brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A NR-1 que entra em vigor em maio \u00e9, em larga medida, o reconhecimento normativo de uma realidade que o contencioso da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica j\u00e1 vinha denunciando h\u00e1 tempo. Os tribunais que julgam as a\u00e7\u00f5es dos servidores est\u00e3o definindo, em senten\u00e7as, em ac\u00f3rd\u00e3os e em precedentes, os contornos do que ser\u00e1 exigido das empresas privadas nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem ainda n\u00e3o entendeu isso vai descobrir do modo mais caro: pela via judicial, com senten\u00e7a transitada em julgado e juros de mora. O servi\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 o problema. \u00c9 o term\u00f4metro. E o term\u00f4metro est\u00e1 marcando febre alta h\u00e1 cinco anos consecutivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Daniel Pedroso, procurador-chefe do munic\u00edpio de Guarulhos (SP) <br>Fonte: <a href=\"https:\/\/vocerh.abril.com.br\/saude-mental\/nr-1-valendo-setor-publico-e-termometro-para-o-que-vira-na-iniciativa-privada\/\">Voc\u00ea RH<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem litiga h\u00e1 anos no contencioso trabalhista da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica aprende a reconhecer um padr\u00e3o. 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